fotografia – o foco de Sebastião Salgado | Brilia

A vida de Sebastião Salgado dá um livro. Em plenos anos de chumbo da ditadura militar brasileira foi amigo do líder revolucionário Carlos Marighela, emigrou para Paris em 1969, trabalhou como secretário na Organização Internacional do Café (OIC), em Londres, e numa de suas inúmeras viagens para a África, a convite do Banco Mundial, fez sua primeira sessão de fotos com a Leica de sua esposa, a arquiteta Lélia Deluiz Wanick. Poucos anos depois, em 1973, estabeleceu-se como fotojornalista em Paris, onde atuou para importantes agências de fotografia como a Magnum, Sygma e Gamma. Ao ser pautado para cobrir os primeiros 100 dias do governo Reagan, nos Estados Unidos, foi o homem que estava no lugar certo, na hora certa: teve o privilégio, se é que podemos dizer assim, de fotografar o atentado a tiros contra o presidente Ronald Reagan. Era março de 1981 e a venda das imagens para a imprensa de todo o mundo permitiu financiar seu primeiro projeto: uma viagem de cliques pela África. Esse momento marcou sua ida ao olimpo dos grandes mestres da fotografia de arte. Mas o start para iniciar uma nova carreira surgiu muito antes, em 1970, aos 26 anos de idade, quando Salgado olhou o mundo através de sua câmera e a vida passou a fazer sentido para ele. Daquele dia em diante, apesar de ter levado anos de trabalho duro antes que tivesse a experiência para ganhar a vida como fotógrafo, a câmera tornou-se sua principal ferramenta para interagir com o mundo. Com poucas incursões pela cor, a fotografia em preto e branco é sua marca registrada. “Sempre preferi a paleta chiaroscuro das imagens em PB”.

 

Após diversas séries de fotografias que documentam situações limites do ser humano em diferentes lugares do planeta, seu mais recente trabalho, o livro Genesis, faz uma homenagem fotográfica à Terra em seu estado natural. “Em Genesis, minha câmera permitiu que a natureza pudesse falar comigo. E tive o privilégio de ouvir”, brinca o fotógrafo. Essa audição já estava em seu DNA desde a infância, quando vivia em uma fazenda no interior de Minas Gerais. O amor e o respeito à natureza eram divididos com outra preocupação que o acompanha desde que se entende por gente: a sensibilidade para perceber o quanto os seres humanos são afetados por suas condições sociais e econômicas. Em sua trajetória como fotógrafo, três projetos de longo prazo ganharam destaque e projeção. A série Trabalhadores (1993) documentou a forma de fuga da vida de trabalhadores braçais em todo o mundo; Migrações (2000) fez um registro da migração em massa, seja pela fome, catástrofes naturais, a degradação ambiental e a pressão demográfica; e, por fim, seu mais recente livro, Genesis. Resultado de um período de oito anos de expedição, quase épica, para redescobrir as montanhas, desertos e oceanos, animais e povos. Um recorte da vida em um planeta ainda intocado. “Cerca de 46% do planeta ainda é como era no tempo da Gênese”, afirma o fotógrafo.

“Nós temos que preservar o que existe. O projeto Genesis é dedicado a mostrar a beleza de nosso planeta, revertendo os danos causados, e preservá-lo para o futuro”. Com inúmeras viagens, seja em aviões, navios, canoas e até balões, Salgado enfrentou calor e frio extremos a fim de capturar uma coleção de imagens de tirar o fôlego – que mostram a natureza, os animais e os povos indígenas. Com sua peculiar destreza em fazer registros em preto e branco, Salgado é um dos mestres contemporâneos que dominam e levam o monocromático para uma nova dimensão, seja nas variações tonais ou nos contrastes de luz e sombra. No livro Genesis, editado pela Taschen, o leitor poderá ver, a partir de ângulos inéditos, espécies de animais e vulcões de Galápagos; pinguins, leões-marinhos, biguás e baleias da Antártida e Atlântico Sul; jacarés e onças brasileiros; leões, leopardos e elefantes africanos; uma tribo nas profundezas da selva amazônica; nômades e fazendeiros do Sudão; rebanhos de rena do Círculo Polar Ártico; tribos da selva em Sumatra; icebergs na Antártida; os vulcões da África Central; o deserto do Saara, as ravinas do Grand Canyon; os rios Negro e Juruá na Amazônia e as geleiras do Alasca. Tendo dedicado tempo, energia e paixão para a realização desse projeto, Salgado chama a série Genesis “como minha carta de amor para o planeta”.